Especial: Lolita

Postado Por Lara Gutierrez

A obra mais ambiciosa de Vladimir Nabokov, o russo que brincou com a língua inglesa com uma habilidade assustadora, é o “Especial” da vez. Esta obra polêmica foi lançada em 1955 causando uma comoção sem proporções, pois se hoje em dia seria de uma controvérsia absurda um livro narrando a história de um romance sórdido entre um homem na faixa dos quarenta anos e uma garotinha de doze, que por sinal, era sua enteada – e que de inocente não tinha nada – imaginem como foi recebido a obra em sua época, ainda naquele período tenso pós-guerra? Enfim, o livro foi censurado em diversos países, inclusive na própria Rússia, pátria do autor, apesar deste ter escrito o livro primeiramente em inglês, língua a qual pareceu tão à vontade em escrever que achavam difícil de acreditar que não era sua língua natal. Eu tive a sorte de encontrar a melhor das traduções deste livro, que é a feita por Jorio Dauster, que com muito esforço conseguiu manter a linguagem muito mais poética e bem pouco literal que o autor tentou passar (e conseguiu).

O que é incrível não é só a história em si, mas o que ela é capaz de provocar. Repugnância, por se tratar de um romance criminoso, curiosidade científica (psicólogos e psiquiatras analisam Lolita até hoje), e por fim, lágrimas de compaixão quando se percebe o que um amor quando movido de loucura pode fazer. É necessário ter uma certa sensibilidade e, confesso, um certo gosto pela beleza da tragédia, para se deixar levar – e comover.

O livro, diga-se de passagem, é nada mais que 300 páginas de uma declaração de amor de uma pessoa claramente insana. Alguém cuja vida foi arruinada por uma obsessão, um desejo doentio. A triste história trágica do professor Humbert Humbert (nome falso, como ele esclarece), preso por assassinato e, que antes de morrer de trombose coronária, deixou em sua cela um relato por escrito de sua história de amor e tragédia. E este pede, encarecidamente, que seu relato seja levado a público para que todos possam vim a saber, independente dos julgamentos sociais, e de quanto tudo aquilo era errado e sórdido, “o quanto ele amou sua Lolita”, acima de tudo, tenha sido loucura ou desespero, mas ele acredita que foi amor. Ele enfatiza que o único nome verdadeiro que manteve foi o de Lolita, porque jamais teria coragem de alterar a sua identidade, como fez com todos os outros integrantes da história.

Então é com a ideia de que estamos lendo um relato post mortem que começamos com a obra tão chocante, crua e ao mesmo tempo uma das mais humanas, no sentido mais primordial da coisa, pois existe algo mais humano do que o pecado? E o nosso mocinho não poderia ser mais pecador, além de um assassino, é um pedófilo assumido (pelo menos, para ele mesmo). E apaixonado. Deixando claro em várias passagens do livro a sua patologia, a sua total consciência da  doença e do quanto ele a repugna, porque ao contrário do que seria o comum, antes de Lolita, ele nunca havia tocado outra criança, ele se continha, tinha nojo do próprio desejo.

Uma das partes mais peculiares é que é simplesmente impossível odiar o Humbert, e talvez algumas pessoas estranhem essa afirmação, de que eu simpatize muito mais com ele do que com a própria Lolita, que era para ter o lugar de “vítima” da história, mas é algo meio entrelaçado no livro. Nabokov escreveu uma obra tão incrivelmente psicológica que a Lolita poucas vezes provoca pena ou simpatia, muito pelo contrário, ela é cheia de joguinhos e artimanhas, uma espécie de cigana que brinca de ser criança, um lobo em pele de cordeiro.
lola
Entramos no mundo de “Lolita” tendo consciência de duas coisas: primeiro – Humbert está morto. Segunda - Lolita também. Apenas não sabemos como ocorreu. E isso nos enlouquece até chegar ao final, porque ele vai soltando aos poucos coisas que aconteceram, e você fica maluco querendo chegar logo na parte.

O livro tem tantos quotes incríveis que eu queria poder colocar todos aqui, infelizmente, não posso. Foi escrito de uma maneira tão sofisticada, que se lido em voz alta pode soar como poesia. Mas o início é um clássico, uma dança em prosa, uma música em forma de palavras – e foi quase que literalmente colocada no início da adaptação cinematográfica de 1997 (a única que eu considero, tendo em vista que a de 1962 é TERRÍVEL).

“Lolita, luz de minha vida, labareda em minha carne. Minha alma, minha lama. Lolita, a ponta da língua descendo em três saltos pelo céu da boca para tropeçar de leve, no terceiro, contra os dentes. Lo. Li. Ta.

Pela manhã ela era Lô, não mais que Lô, com seu metro e quarenta e sete de altura e calçando uma única meia soquete. Era Lola ao vestir os jeans desbotados. Era Dolly na escola. Era Dolores sobre a linha pontilhada. Mas em meus braços sempre foi Lolita.” 

Uma das curiosidades de Lolita é que foi através do livro que surgiu a expressão “nymphet”, ou traduzindo, “ninfeta”. O autor, através do personagem de Humbert, revela o conceito tão mal interpretado muitas vezes, criado na ficção pela própria mente insana do professor.

“Quero agora expor uma ideia. Entre os limites de idade de nove e catorze anos, virgens há que revelam a certos viajadores enfeitiçados, bastante mais velhos que elas, sua verdadeira natureza – que não é humana, mas nínfica (isto é, diabólica). A essas criaturas singulares proponho dar o nome de ‘ninfetas’. [...] Será que todas as meninas entre esse limite de idade são ninfetas? Claro que não. Se assim fosse, nós que conhecemos o mapa do tesouro, que somos os viajantes solitários, os ninfoleptos, teríamos há  muito enlouquecido. Tampouco a beleza serve como critério; e a vulgaridade, ou pelo menos aquilo que determinados grupos sociais entendem como tal, não é necessariamente incompatível com certas características misteriosas, a graça natural, o charme imponderável, volúvel, insidioso e perturbador que distingue a ninfeta das meninas de sua idade [...]” 

Uma das maiores belezas do livro está na sua dualidade, à medida que você vai entrando na complexa maldição que Humbert carrega, você acaba por sentir que não sabe quem é mais vítima naquela história toda. Lolita usa do amor dele quando é necessário, faz pouco, faz charme, provoca, como um pequeno demônio com trejeitos de anjo.

Por outro lado também é impossível saber se realmente os fatos ocorreram como estão relatados, pois tudo que sabemos é o ponto de vista de Humbert, um ponto de vista completamente conturbado e parcial, motivado pela obsessão. Ou seria puro amor cego?

O livro leva ao clímax mais visceral, inquietante e desesperador que eu já li. De uma cena de reencontro que estraçalha o coração do leitor e seguindo a cena do assassinato que é aguardada desde o início da obra. E então segue-se um diálogo incrível que infelizmente não está presente no filme, antes de um Humbert completamente movido a desamor e desesperança e sem qualquer razão de permanecer vivendo cometer o crime que o leva a prisão de onde ele escreve o livro que se chamará Lolita.

lolita imagemEnfim, eu super indico esse livro, é DE LONGE, o melhor livro que eu já li na vida. Mas somente se você tiver lido uma certa quantidade de livros que te acrescentem uma certa maturidade literária, porque não é um livro muito fácil de interpretar.

E para finalizar, um último quote que fala do período em que eles estavam viajando por todo o território americano, sem fixar residência, vivendo socialmente como padrasto e enteada, porém às escondidas viviam como homem e mulher. Só para expressar o quão paradoxal era o interior de Humbert, o quanto ele vivia em uma constante batalha moral, e como Nabokov foi um gênio ao mostrar isso, e comover revelando um mocinho tão consciente de sua própria imoralidade.

“Apesar de nossas brigas, apesar de sua má-criação, apesar das exigências e caretas que ela fazia, sem falar na sua vulgaridade, no perigo e na horrível desesperança de tudo aquilo, eu ainda residia no paraíso de minha escolha, um paraíso cujo céu tinha a cor das labaredas do inferno, mas ainda assim um paraíso.”   

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