Crítica - Noé

O mais recente filme do diretor Darren Aronofsky (Cisne Negro, Réquiem Para um Sonho), ambienta o conto bíblico de a barca de Noé para um épico fantasioso, complexo e emocionante. Não almejando, de modo algum, fidelidade com o da Bíblia, e muito menos se sobrepor a este, que fique bem claro, porque infelizmente parte do público não compreendeu esta finalidade do filme, que é muito além de querer mostrar uma suposta verdade (não entrarei nesse mérito do que é ou não real), mas sim o de passar uma mensagem, que foi muito bem passada, por sinal.


Que a direção de Aronofsky é magnífica já não é nenhuma novidade, todos os seus filmes trazem para o público um total envolvimento com os personagens, mesmo que você não tenha absolutamente nada a ver com ele, mas de alguma forma, você de repente se sente colocado naquela situação, sofre junto, chega ao limite junto.

E é exatamente sobre limites que tratam os filmes de Darren, sempre uma eterna busca - seja por uma resposta (Pi), uma cura (Fonte da Vida), remorsos (O Lutador), por um sonho (Réquiem Para um Sonho), pela perfeição (Cisne Negro) - os personagens sempre atingem o ápice ao se encontrarem no fundo do poço, ao chegarem no seu extremo, na linha que demarca o que eles não são mais capazes de suportar, culminando na definitiva perda de si mesmos para aquela obsessão.

Noé não poderia ser diferente, e finalmente vemos um homem chegar ao limite pela fé. Uma fé cega pela qual ele faria tudo, independente do que fosse para cumprir seu dever para com seu Criador. A beleza do filme está no auto sacrifício não só do próprio Noé, mas de toda sua família, em nome do que eles acreditavam, mesmo que muitas vezes não parecesse certo, sempre tentando aceitar que “Deus escreve certo por linhas tortas”.

Mas a grande sacada do filme está exatamente aí, que Deus muitas vezes não está escrevendo certo por linhas tortas, mas sim nos dando a caneta para nós mesmos escrevermos. Ele escolheu Noé sim, mas não para obedecer a Sua vontade como ele supunha, e sim por ter visto em Noé a humanidade (que estava cada vez mais perdida entre os povos) para o próprio tomar a decisão certa. Uma das maiores belezas do filme é entender que o ser humano ainda pode ser bom, puro, que a fé pode ser grande, mas maior que qualquer coisa é o amor, e que o amor tem que prevalecer, ele é a resposta.

O ser humano é o próprio milagre, em um mundo em que a tendência é cada vez mais piorar, ainda existem mães, pais, filhos, irmãos, maridos, mulheres, que se amam e que fariam tudo uns pelos outros, e esse é o grande feito da raça humana, que não merece ser destruído e sim poupado.

Quanto à parte técnica, os efeitos especiais dos animais não estão a melhor coisa do mundo, mas estão satisfatórios. O 3D está lindíssimo, e os momentos da inundação são um show a parte. O filme é épico, os diálogos inteligentíssimos, e momentos realmente arrepiantes.

Em atuação, precisa nem comentar, um elenco magnânimo, cada qual dando seu show particular. Emma Watson foi, sem dúvida, a surpresa agradável do filme, claro que já sabíamos que ela é excelente atriz, mas nunca tinha sido tão exigido dela, e ela fez bonito, fez lindo, arrasou. A cena mais emocionante do filme é toda dela e do Russel Crowe que, como sempre, fez um excelente trabalho.

O filme é um bálsamo de esperança e fé, não pretensiosamente religioso, ou extremista, nem desrespeitoso (muito pelo contrário), é apenas uma história FICCIONAL de como um homem pode ser o escolhido, e ainda assim ser cheio de falhas, dúvidas, muitas vezes crueldade, mas ao mesmo tempo justo e nobre, e acima de tudo digno aos olhos do Criador, porque esse é o ponto em ser humano, essa dualidade que faz com que Deus não consiga se desfazer do amor por nós, ainda que nem sejamos merecedores, mas sempre temos uma segunda chance.


Lara Gutierrez

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