Crítica | Malévola


De uns tempos pra cá o mercado cinematográfico de blockbusters vem enfrentando uma época que, desde o começo, não me agradou muito. A moda de “reinventar” clássicos, sejam eles infantis ou não, nunca me foi muito bem-vinda, visto que os maiores exemplos desses “reboot”s revolucionários em live-action não chegam perto de ser bons: Tim Burton decepciona em “Alice no País das Maravilhas”; “Oz: Mágico e Poderoso” dispensa comentários quanto sua falta de qualidade, “Branca de Neve e o Caçador” é bom em alguns momentos, porém não supre a maioridade de momentos ruins... outros casos são irrelevantes e não necessitam de comentários. Mas os filmes dão tanto lucro, que a moda continua sujando o quadro atual do cinema Hollywoodiano.

Mas sempre há esperanças, e as vezes, resultam em exceções. Confesso que minhas expectativas quanto ao mais novo reboot live-action produzido pela Disney, “Malévola”, se resumiam à Angelina Jolie, que aprecio muito o trabalho, e nunca me decepcionou. Estava, até certo ponto, relativamente ansioso para esse. Fiquei surpreso no decorrer do filme, e mais ainda ao seu término, ao constatar que ele ultrapassa uma simples atuação (aliás, bem simples nesse filme) de Jolie, e tem moral e crédito para se firmar entre em um dos melhores, se não o melhor, reboot live-action de fantasia de uns seis anos pra cá.

O aspecto que mais prezei em Malévola foi, acima de tudo, o respeito que o longa dirigido por Robert Stromberg teve com a obra original, fazendo com que o conceito do diretor, em relação a mim, e tenho certeza que para a maioria dos fãs do clássico longa animado, tenha subido imediatamente. A preparação, capricho, e acabamento do roteiro são evidentes. O filme lida com as mudanças que fez em relação à obra original (e não são poucas), de forma decente, e executada com extrema beleza, em todos os sentidos.
Desde a personalidade “nem boa, nem ruim” de Malévola, até a rixa entre os dois reinos que são nos apresentados, (esse plot, por sinal, é o mais importante do filme) são bem executados, montados, e contém um timing perfeito, assim como o filme no geral.

Todos (todos, mesmo) os plots nesse filme são bem aproveitados. A história de Malévola, que é contada desde quando ela era pequena, passando pela adolescência, até a vida adulta, se transformando em uma das piores vilãs dos contos de fadas, é contada de forma esplêndida, nos fazendo criar afeto por ela. O filme constrói uma anti-heroína exemplar, com inúmeros lados e seus motivos para ter se tornado o que é.
Isso é um dos pontos mais interessantes: o fato do diretor ter pegado vilãs da Disney, que por si só, já carregam um certo estereótipo de maldosas, sem empatia nenhuma em relação às pessoas, e colocar um toque humano ali, um sentimento. Foi uma ousadia que eu queria, até hoje, ter visto em um desses reboots, e Malévola foi o que mais explorou o conceito.

O melhor foi o aprofundamento na relação Vilã / Princesa, que aqui, foi claramente inspirada em uma relação conturbada entre Mãe / Filha. Foi extremamente divertido ver o lado “maternal”, digamos assim, de Malévola em relação a uma criança. A cena em que a filha de Jolie, pequena, interpretando a princesa Aurora, abraça Malévola, e ela a rejeita, a chamando de “Praga”, mas ao mesmo tempo, percebendo que um afeto pela criança estava sendo construído dentro de si, e que ela não tinha forças para lutar contra, foi tão bem feita e atuada por Jolie, que ganhou meus elogios ali.
É o ponto alto, em minha opinião, do longa, ter resolvido explorar não a maldade, mas o lado humano de uma vilã. O aprofundamento da personagem é imenso, e emociona algumas vezes.

Falando um pouco de atuações, Jolie foi ótima, mas nada muito especial. Me acostumei, e adotei a filosofia de que blockbusters não são filmes feitos para serem avaliados em cima de atuações (embora tenha relutado em assumir isso).
Apesar de, na maioria das vezes, trazerem bons atores, a história e a grandiosidade dos efeitos ofusca esse lado mais “humano” do cinema, e o ator consagrado que está ali passa a ser mais um entre os inúmeros outros da produção. Mas Jolie ainda consegue impressionar, equilibrando, perfeitamente, a maldade com o restinho de amor que ainda sobra em Malévola, com apenas um olhar, ou fala.

Elle Fanning, como a jovem Aurora, é extremamente comum, sem ser ruim, mas também não surpreende em nada. Ouvi vários comentários sobre o sorriso da menina, ao término da sessão, e realmente é muito bonito. Ela nos faz ter empatia pela princesa, embora a personagem, ao contrário da vilã, ainda carregue o estereótipo de "Boazinha", e "Acima de Qualquer Erro Humano". Mas, sendo o foco quase que inteiramente na vilã, então podemos relevar esse aspecto sem condenar o filme.

Os efeitos e fotografia estão na mesma linha Disney: muito, muito bons, mas nada que surpreenda. A direção, no seu aspecto mais técnico, segue a linha comum. Realmente, não é de se esperar uma direção tão inovadora em filmes como esse. O que rouba a cena da produção MESMO é o roteiro, trincado, arrojado, com o tempo certo para tudo. Sem demorar muito aqui, sem ser muito rápido ali, transformando duas horas em um divertimento garantido, que passa em um picar de olhos, mesclando cenas de ação espetaculares, com certa violência que, a meu ver, foram um tanto quanto carregadas demais e inadequadas para a classificação em que o filme ficou (12 Anos), e um Drama bem encaixado, que aparece na hora correta, sendo totalmente propício, e até necessário, para a trama.

Malévola é, sem dúvida, um avanço para a nova linha que a Walt Disney resolveu seguir. Foi uma divisão de águas, e muito bem-vinda. Basta, agora, esperar que influencie a distribuidora e produzir filmes melhores da mesma linha, ou, pelo menos, tão bons quanto. Problema mesmo será se a única exceção for esse, e continuar vindo mais “Alice”s, “Oz”s, e “Branca”s, por aí.


Yuri Hollanda

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