Review | Doctor Who - Listen (S08E04)

Sinopse: O que assusta o Doctor? Que horrores espreitam debaixo de sua cama? Fantasmas do passado e do futuro inundam as vidas do Doctor e de Clara; um assustado zelador em um orfanato, o ultimo homem de pé no universo, e um garoto que não quer ir para o exército.

Imagine que você nunca esteve sozinho. Imagine que aquele arrepio que você sente na sua nuca seja, na verdade, a respiração de alguém que te observa. Agora, por que essa ideia de uma presença invisível é tão assustadora? Como aquilo que não vimos pode nos afetar tanto? 

A verdade é que os responsáveis por tornarem esse conceito tão ameaçador, somos nós mesmos. Afinal, quando tentamos dar rosto aquilo que não vimos, acabamos criando algo pior do que realmente é, e muitas vezes nos levando a crer em algo que na verdade nunca esteve ali. Graças a nossa mente, o desconhecido sempre vai ser o mais temido, se tornando um dos nossos medos mais primordiais. E sendo uma das especialidades do Moffat usar esse tipo de medo para contar histórias, ele pega esses elementos e entrega não só o melhor episódio da temporada até agora - talvez um dos melhores da série - como também usa a temática para trabalhar no desenvolvimento do Doctor, trazendo novamente um lado mais humano para o Time Lord.

Aliás, isso é algo que vale ressaltar. Listen é mais um estudo da personagem que qualquer outra coisa. E entra na cabeça do Doctor de uma forma nunca feita antes na série.

O episódio, no entanto, não se trata apenas sobre ele, e também acompanha Clara em seu desastroso encontro com Danny Pink. 
As cenas dos dois no restaurante servem quase como um alívio pra toda tensão que acompanha a história, e por mais que voltemos a elas bem no meio do episódio, não há uma quebra de ritmo como deveria acontecer. O que é outra coisa que foi muito bem trabalhada aqui.

O timing dos acontecimentos é ótimo, e o clima - que é estabelecido logo de cara em uma bela sequência de abertura - mais ainda. Quero dizer, a coisa toda consegue te passar uma paranoia e transmitir uma sensação de que há algo além do que se vê. A cena em que o Doctor rouba o café do zelador prova isso, pois o que parecia obra de um poltergeist, acabou sendo apenas uma piadinha.

E se já é assim em momentos mais "leves", dá pra ter uma ideia de como é quando a intenção é realmente assustar, e a cena que se segue é, com toda a certeza, uma das mais aterrorizante de toda a série. Isso acontece quando se dá uma "forma" física ao Ser desconhecido da trama, e o melhor de tudo é que a sua natureza fica no ar, sendo oferecida a opção de que aquilo, na verdade, podia ser apenas uma criança pregando uma peça em outra, deixando o público tirar suas próprias conclusões. Eu acredito que sim, existia um monstro.

Outro destaque dessa cena é a forma como Clara lida com o pequeno Rupert (ou Danny), mostrando seu jeito com crianças e seu lado maternal que conhecemos lá na 7ª temporada, e perto do 12th, isso só entra em contraste. Mas apesar de ser mais seco, o Doctor também tem seu momento, encorajando Rupert com seu discurso de que "o medo é um superpoder" - sendo essa a primeira interação de Capaldi com uma criança na série, soando tão natural quanto Matt Smith.

Aqui nós ainda descobrimos a inspiração do garoto em ir para o exército, e como Clara teve influência nisso ao  usar o 'Dan, o soldado' para acalmá-lo. É interessante notar o foco que a câmera dá no Doctor nessa cena, mais uma vez fazendo um paralelo com a imagem dele.
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A terceira parte do episódio é o mais carregado, e a obsessão do Time Lord por essa "criatura que vive para se esconder" em que ele esta à procura, se mostra mais evidente. Devido a essa busca, ele e Clara acabam parando no "fim dos tempos", e da mesma forma que eles encontraram Rupert/Danny, eles encontram Orson Pink.
Moffat brinca mais uma vez com a ideia de deixar as coisas no ar aqui, e fica subentendido que Orson tem algum parentesco com Clara. O que é legal, porque ao mesmo tempo que isso pode ser uma prévia do destino dela, também pode ser outra coisa, já que o fato não é confirmado.

What’s that in the mirror or the corner of your eye? 
What’s that footstep following, but never passing by?

As cenas na nave do Orson são bem claustrofóbicas, e o que mais chama atenção é o silêncio inquietante durante elas, que só aumenta o sentimento de angustia e solidão. Esse silêncio, no entanto, logo é quebrado, dando lugar a vários barulhos causados fora da nave. O Doctor ainda insiste em achar uma explicação racional para cada um deles, mas a paranoia vence e no instante seguinte, ele já afirma que há alguém batendo na porta.

O que torna essa sequencia mais impressionante é a atuação de Peter Capaldi, porque você acredita naquilo, porque ele acredita.

Quando ele grita com a Clara, e diz que ela não irá mais viajar com ele caso não entre na Tardis, você também percebe que não é uma ameça vaga. E isso é a melhor coisa do 12th, ele passa um sentimento que nenhum outro Doctor da série nova conseguiu passar, que é o de imprevisibilidade. Não dá pra dizer o que ele fará em seguida. Ao recitar o poema, você ainda consegue ver o olhar de "loucura" no seu rosto, e quando ele abre a porta... medo.
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Em fato, o que guia o episódio é a seguinte pergunta: Do que o Doctor tem medo? E o que consagra Listen é a forma que Steven Moffat escolhe lidar com isso, fechando a história da forma mais poderosa possível.

A cena da cabana é facilmente a mais bem escritas da série, sendo ao mesmo tempo chocante e emocionante. É nesse momento que descobrimos a fonte de todo a paranoia do Doctor e como ele está sujeito a sentimentos tão humanos.

O monólogo final de Clara além de tocante é quase um tributo do roteirista pra série, superando algo que eu nunca achei que seria possível, que é a sequência da "promessa" em The Day of the Doctor. Na verdade ele funciona quase que como um epílogo do especial de 50 anos. Afinal, o crucial dessa cena é que ela é direcionada para o garoto que não queria se juntar ao exército, mas que devido as circunstancias, acabaria se tornando o maior soldado que já existiu e que mais tarde, teria que enfrentar o dilema de destruir a própria raça e salvar o resto do mundo.

Não dá pra negar que a ideia de reutilizar a cabana que o War Doctor decidiu usar o Moment foi brilhante.

Ser a Clara ali também foi outra coisa que tornou essa cena tão especial (pelo menos pra mim). Alguns podem dizer que por ela estar muito envolvida com o passado dele, o foco da série passa pra ela, mas ao meu ver, isso só dá mais ênfase a imagem do Time Lord. Veja bem, nós já observamos que Clara sempre tenta trazer o melhor do Doctor a tona, e mesmo sabendo que ele tem falhas, pra ela, ele é um herói! Usar as próprias palavras dele para confortá-lo só reforçou isso, pois o discurso é baseado na forma que ela o vê, ela diz que tudo vai ficar bem, porque ela o conhece e sabe que vai.
Isso é basicamente aquilo que foi tratado em Robot of Sherwood: O Doctor inspira as pessoas a serem heróis em nome dele, e ao consolar a criança, foi isso que Clara foi aqui. Ela não foi uma influencia pra ele, ela foi um apoio.

Mas enfim... a construção do episódio é tão boa que se pode tirar várias coisas dela, e ainda oferece mais de um modo de se interpretar os eventos. Então pra resumir: Eis aqui uma das melhores histórias da série.
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Obs: Pra quem diz que é impossível ir para Gallifrey no passado: A série clássica já estabeleceu que isso pode sim acontecer. A time-lock existe apenas para conter a Guerra do Tempo e os eventos que levaram a ela, algo que sempre ficou claro. Do contrário, o Valeyard - que surgiu depois da 12ª encarnação do Doctor -  não teria conseguido ir para a época do 6th. Ou nenhum episódio em que vários Doctors se encontram em Gallifrey, seria canônico (o que não é o caso).

Obs 2: Muita gente também ficou confusa com o papo da academia, mas é aquilo mesmo. Time Lord não é a espécie, é um título. Só é um quem se forma na Academia de Gallifrey. Eles são a "elite" do planeta. 



Promo do próximo episódio: 


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