Crítica | Jogos Vorazes: A Esperança - Parte 1


Mais uma vítima da ganância Hollywoodiana.



A premissa da saga "Jogos Vorazes", desde o início, foi muito boa. A ideia de ter uma nova franquia adolescente com um tema maduro, totalmente diferente da leva a que estávamos acostumados (em uma geração onde obras de cunho fantástico tinham um peso exorbitantemente maior do que uma com essência realista, diplomática e política), trazendo o retrato maduro e brutal de uma sociedade distópica e totalitária em caos, foi um frescor para as séries adolescentes.

O material original, a trilogia literária escrita por Suzanne Collins, digna de uma ideia fantástica, mas que é conduzida de forma pouco arquitetada, proporcionou às adaptações cinematográficas de "Jogos Vorazes" uma liberdade maior para fazer com que os acontecimentos descritos nos livros funcionassem melhor nas telas, do que na escrita pobre de Collins, e elevassem os dois primeiros filmes a um nível infinitamente superior aos livros.

Infelizmente, não é o que acontece no terceiro filme da saga, "A Esperança - Parte 1", que como o próprio título diz, é a primeira parte da divisão do último livro de mesmo nome, que por sí só já não merece o tal repartimento (Nova fórmula encontrada por Hollywood para dobrar o arrecadamento de filmes que não precisam fazer o mínimo esforço para isso).
A razão pela divisão ter dado terrivelmente errado dessa vez, não fugindo da regra do que vem acontecendo de fato, é, simplesmente, pela obra a ser adaptada não ter conteúdo para sustentar dois filmes de uma história que poderia ser facilmente resumida em um único longa de duração padrão. Não que a divisão tenha sido sempre mal vista. A saga sempre foi bem-vinda nas telonas, e as chances de uma divisão, mesmo que incoerente, desse errado, eram mínimas na visão de seu público.
Mas o tiro saiu pela culatra.

A ausência de acontecimentos relevantes durante as duas horas do longa é o que mais incomoda. O filme inteiro é uma eterna e tediosa propaganda para a "Capital", onde Katniss precisa assumir seu posto de símbolo da revolução, que está acontecendo nos Distritos de uma futura America do Norte, massacrada pelo regime cruel do Presidente Snow. O filme resolve, então, mostrar Katniss e sua trupe usufruindo da mídia para conseguir, de alguma forma, se sobrepor ao governo de Snow e conseguir o apoio dos distritos para despertar a revolta desse povo, sendo a única forma de lutar contra a Capital.
Mas o filme se resume a isso e somente isso, passando a impressão de andar em círculos e de estar mendigando acontecimentos que começam a ser desenvolvidos e que não são terminados, ou se terminam, é de forma insatisfatória.

Isso desperta um lado novo aos filmes, resultando no volume mais parado até agora. Parado não, pois uma obra parada não significa, necessariamente, uma obra ruim (o que "A Esperança", é). "Monótono" é o adjetivo correto para o filme: Roteiro carente, com personagem que só existem, vagueando perdidos e sem um motivo para tal, e que não fazem nada realmente importante. O mais frustrante de tudo, é que a produção (principalmente direção e roteiro), parece não fazer o mínimo esforço para receber a atenção do público. O filme se mostra uma eterna repetição de um enredo que anda em círculos, passando a sensação óbvia de uma desesperada produção que não passa do nível caça-níquel (da pior qualidade, não conseguindo ao menos disfarçar a atitude).

Analisando a obra toda, é perceptível que a mesma poderia ser, facilmente, resumida em um único livro, ou filme: não há necessidade de repetição da Arena, como foi mostrado em "Em Chamas" (apesar de ter tido um resultado ótimo, tornando o filme mais tragável e bem aceito, mas, por outro lado, usando a mesma fórmula do primeiro), e muito menos de um final dividido. Após assistir "A Esperança - Parte 1", a certeza de que o final  da "história Voraz" seria muito melhor desenvolvido e aproveitado em somente um filme fica mais evidente.

O longa é totalmente anti climático, não mantém um raciocínio, e não possuí uma linha do tempo de acontecimentos. Tudo de bom que o filme tem para proporcionar está em seu elenco de peso: Jennifer Lawrence sempre dando tudo de si, em qualquer trabalho que faça, passa as emoções da anti-heroína Katniss como nenhuma outra poderia passar. A participação de Julianne Moore como a Líder Rebelde, Alma Coin, também é muito bem-vinda, e junto de Philip Seymour Hoffman (que já tinha gravado suas cenas para o filme, antes de falecer este ano), protagoniza ótimas cenas de interpretação, e passam a sensação de carregarem o filme nas costas, injustamente.
Porém, o peso e talento desses atores, apesar de enormes, não são suficientes e não conseguem levar sozinhos um filme que não tem a menor base para ser sustentado.

É realmente uma lástima constatar que uma saga tão promissora irá carregar, eternamente, uma mancha como essa em seu terceiro ano. A sua segunda parte, então, tem como início o fim da parte um, que não é dos melhores, mas acrescenta algo de bom em um conjunto tão escaço em qualidade, e lança a promessa de um final à altura do que provou em seu princípio.
Esperemos que a parte final de "A Esperança" resgate os ares da antiga "Jogos Vorazes", e ofusque a parte 1 à nível de exceção. É uma tarefa difícil, mas a produção já provou ter qualidade, e se a recuperarem, farão um final digno a uma série tão convicta como essa.
Mas a maçã podre no meio de tantas vermelhas, no entanto, por enquanto, é difícil de ignorar.

Yuri Hollanda

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