Crítica | Êxodo: Deuses e Reis


Em 2014 tivemos dois filmes bíblicos de grandes estúdios. O primeiro foi Noé (Paramount) de Darren Aronofsky que decidiu ir num misto de criacionismo e evolucionismo para contar a sua história e agora temos Êxodo: Deuses e Reis (Fox) que decide ir por uma rota alternativa mais científica. Tinha esperança e expectativas que por ser um épico veria o retorno de Ridley Scott a um trabalho como foi Gladiador (2000), vencedor de melhor filme do Academy Awards. Todavia a história contada aqui até pode ser de um evento épico, mas é mostrada de um jeito totalmente anti-épico (e anti-climatico), sendo uma recontagem monótona do êxodo da Bíblia.

O longa é um estranho erro que saiu da sala de edição. Mesmo com diversos acontecimentos rápidos o filme não tem ritmo, a passagem de tempo é estranha e não usa o tempo que tem de forma coesa. A fraca escrita requisita que os personagens digam a todo instante o que está acontecendo e mesmo com essa exposição o filme ainda parece confuso. Personagens são introduzidos a todo momento para fazer a história andar e acabam largados sem importância como é o caso de Tuya, personagem de Sigourney Weaver (Alien), Zipporah, a mulher de Moisés interpretada por Maria Valverde (Libertador) e principalmente a irmã de Moisés vivida por Tara Fitzgerald (Game of Thrones) que desaparece após uma importante cena emocional. 

O próprio Moisés (Christian Bale) parece um estranho, muitas vezes apático, um pouco louco, frio e totalmente inconsistente o que nós deixa com a dúvida se isso foi proposital, uma má escrita, uma direção confusa ou uma fraca atuação (provavelmente uma mistura de tudo). O antagonista Ramsés, vivido por Joel Edgerton, parece só ter uma expressão e não passa emoção quando o roteiro, por milagre, o permite demonstrar. A verdade é que o filme é uma verdadeira viagem à distância sob o êxodo da Bíblia, nunca se aprofundando em nada em particular, muito menos em seus personagens como foi o caso de Noé.

O curioso é que as pragas jogadas no Egito são didaticamente explicadas para o público de forma realista e lógica, mas na última, morte dos primogênitos, o diretor decide apelar para o mítico, que larga momentos mais tarde na cena mais clássica da trama, que é a abertura do mar vermelho, uma das maiores decepções do filme. Se Noé pecou com seus exageros (anjos gigantes de pedras?) Êxodo se tornou tão avesso a sua origem que acabou perdendo todo o charme que poderia ter. Não que ser uma releitura científica e realista da história o torne obrigatoriamente ruim, só que nesse filme em particular não funcionou. Outra polêmica que pode ser levantada pelo filme (isso se ele for relevante o bastante para levantar algo) é a retratação de Deus como uma criança, a ideia que mais me agradou dos quatro roteiristas e que acaba sendo, mais uma vez, mal desenvolvida.

Visualmente o filme também não impressiona, só que também não faz mal uso dos efeitos, que não estão exagerados como a maioria poderia esperar (O 3D foi uma grata surpresa com uma boa profundidade). Existem algumas tomadas intencionalmente artísticas que até seriam interessantes, se já não tivessem aparecido em outros filmes do mesmo estilo. Tal como a direção de arte, a trilha sonora, que tinha tudo para ser um acerto, terminou bastante "usual" e sem personalidade e isso é meio imperdoável em um filme que poderia se valorizar da riqueza da cultura egípcia/hebraica. A maquiagem e vestes dos personagens são uma das poucas coisas que estão no ponto certo.

O fato é que Hollywood ainda precisa aprender (ou reaprender) como tratar o gênero, que independente da cultura, tem de funcionar por si só como filme e esse não foi o caso de Êxodo: Deuses e Reis, que terminou perdido e vazio. Se quiser ver um filme contando a história de Moisés existe alternativas melhores como a animação Príncipe do Egito de 1998 da Dreamworks ou Os Dez Mandamentos de Cecil B. Demille (1956). Scott é conhecido por fazer 'edições de diretor' para seus filmes e já andou comentando por aí que tem planos para Êxodo, coisa que termina sendo algo mais essencial que complementar como deveria, e é uma pena que assim seja já que com 150 minutos havia tempo o suficiente para fazer algo melhor. 



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