Resenha | Senhor das Moscas

Título: Senhor das Moscas
Título Original: Lord of the Flies
Autor(a): William Golding
Editora: Alfaguara
Ano: Ed. 2014 (originalmente publicado em 1954)
Páginas: 223

Sinopse:  Durante a Segunda Guerra Mundial, um avião cai numa ilha deserta, e seus únicos sobreviventes são um grupo de meninos em idade escolar. Eles descobrem os encantos desse refúgio tropical e, liderados por Ralph, procuram se organizar enquanto esperam um possível resgate. Mas aos poucos — e por seus próprios desígnios — esses garotos aparentemente inocentes transformam a ilha numa visceral disputa pelo poder, e sua selvageria rasga a fina superfície da civilidade, que mantinham como uma lembrança remota da vida em sociedade. Ao narrar a história de meninos perdidos numa ilha paradisíaca, aos poucos se deixando levar pela barbárie, Golding constrói uma história eletrizante, ao mesmo tempo uma reflexão sobre a natureza do mal e a tênue linha entre o poder e a violência desmedida.

O clássico da atemporal de William Golding (ganhador do Prêmio Nobel de Literatura no ano 1983 pelo conjunto da obra) retrata a história de um grupo de crianças entre seis e doze anos, durante a II Guerra Mundial, que sofrem um acidente de avião e acabam presos em uma ilha paradisíaca. Livres de qualquer cuidado de um adulto responsável, o grupo precisará estabelecer suas próprias regras para sobreviver, além de tentar manter a civilidade em um ambiente totalmente livre das determinações sociais.

O livro é considerado por muitos uma alusão ao Jardim do Éden, e a chegada dos meninos uma menção a Adão e Eva, durante o período em que ainda não tinham pecado, mas como os seres humanos que são, a convivência e essência de sua natureza acaba falando mais alto, assim como ocorre com Adão e Eva.

Claro que é possível haver diversas interpretações, a minha foi um pouco mais simplista. O autor trouxe com os personagens alegorias de coisas que nos são comuns na sociedade; como a democracia, a racionalidade, a intolerância, a fraqueza, o medo, a inveja, a loucura. Enfim, elementos do cotidiano são retratados com a destreza de um gênio nessa obra tão crua, amarga e, ouso dizer, assustadora.

No início, a tentativa de manter uma ordem definida, com um chefe eleito por maioria de votos, cada membro do grupo assumindo uma devida função para fazer funcionar aquela pequena sociedade “temporária” (claro que eles esperavam ser resgatados), teve êxito à medida do possível, com alguns problemas, alguns desmazelos, como qualquer sistema, porém sustentável.

Ralph é o líder eleito por votos, e apesar de ser um menino bom, não tem tanta fibra e inteligência para liderar, usando o amigo “Porquinho” (talvez o único amigo verdadeiro que ele faz na ilha), que representa a racionalidade, para ser o seu cérebro. Por outro lado, encontra-se Jack, que representa a loucura, a verdadeira face humana quando esta se encontra livre para agir como bem entender, sem os limites estabelecidos pela sociedade, escola, lei, religião, família, etc.     
Nesse contexto de liberdade desmedida, como não poderia ser diferente, vão surgindo conflitos de poderes, inicialmente devido a um suposto “Monstro” que alguns dos meninos menores andam vendo pela noite, e com essa aparição posicionamentos divergentes começam a surgir.

Então, é quando se estabelece a verdadeira guerra entre os poucos habitantes daquela ilha, uma viagem completa à insanidade, a mais pura natureza do mal inerente ao homem, algo que basta ser dado abertura para explodir, o quanto é possível esquecer as regras e a moral em tão curto período de tempo à margem da sociedade, tudo que que cerceou a vida inteira desses garotos cai por terra.

É brilhante ver como é fácil para os garotos aderirem à selvageria, talvez um modo de proteção para esquecerem os verdadeiros problemas, ou até mesmo um modo de se sentirem seguros, pois se forem eles próprios o perigo, não se sentirão tão ameaçados, conseguem convencer a si mesmos que nada é invencível à sua caça, aos poucos vão perdendo qualquer sensibilidade e noção de certo ou errado, chegando a mais pura violência desmedida a qualquer um que se opôr a esse novo sistema.

Em contramão, claro que restam aqueles que se mantêm fiel ao que um dia foram, ou ao menos tentam, essa figura de resistência se concentra em Ralph e Porquinho, que buscam continuar sendo civilizados, racionais, apesar da barbárie que toma conta da ilha, eles mostram nessa trajetória como é cada vez mais difícil se manter são em um mundo de loucos.

Por fim, acho que o maior brilhantismo do livro é do que se trata o Senhor das Moscas em si, claro que é de múltipla interpretação, mas ao meu ver o personagem é uma espécie de figura mística, que representa a maldade humana, o próprio eu selvagem dos garotos, que independente de quanto o mundo evolua, o cerne humano sempre será mau, e qualquer mínima possibilidade de liberação desse lado, a espécie aceita e acata. 

Sempre que emerge alguém de uma multidão com um discurso bem colocado, e enaltece um grupo de pessoas em detrimentos de outro, não importa o quão baixo, cruel ou sujo sejam as ideologias aplicadas, elas consentem e fingem que acreditam que aquilo é o certo.

"Senhor das Moscas" é apenas uma grande paródia da história da humanidade, como já vimos diversas vezes com ditadores, serial killers, figuras públicas, que sabem usar dessa tendência natural humana de visar sempre o auto benefício, de maneira que a cegueira toma conta, e é preciso trazer a iluminação da civilização, das regras, das normas, para que se possa atingir a pacificidade.

Por fim, entende-se com a leitura maravilhosa dessa obra que um homem livre é um homem mau, abrindo uma reflexão complexa e apavorante sobre a facilidade que o ser humano encontra em voltar para aquela fase de escuridão da qual levou milhares de anos para evoluir.
Essa conclusão me lembra a célebre frase de Albert Einstein, que me arrepia da ponta do dedo do pé aos fios de cabelo da cabeça: “A terceira guerra mundial eu não sei como será, mas a quarta será com paus e pedras.
   
P.S.: Esse é o livro favorito do meu autor favorito Stephen King. Só para puxar uma sardinha mesmo haha



Lara Gutierrez

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