Crítica | Selma - Uma Luta Pela Igualdade

Selma como palco de um dos maiores movimentos da história.


A luta pelos direitos igualitários diante da raça de americanos liderada pelo lendário Martin Luther King nunca foi tão cruelmente e grandiosamente retratada como em Selma - Uma Luta Pela Igualdade, filme com uma direção tão diferente de como estamos acostumados em filmes históricos, lembrando, inúmeras vezes, um filme onde lutas e confrontos tem clima cinematográficos, em que dois lados são enfrentados com uma trilha épica de fundo e as batalhas e movimentos são sincronizados. Mas isso, ironicamente, não é, exatamente, um defeito, resultando em uma obra com uma leve ponta épica, conduzida com uma trilha sonora que passa de crua e regional, a um instrumental grandioso, e que carrega boa parte da responsabilidade do bom resultado final de "Selma".

Porém, importante ressaltar que, algumas vezes, o filme passa a sensação de sensacionalismo: A questão épica, a trilha sonora das duas sequências e em que o exército de negros que protestam contra a desigualdade do governo para com sua etnia, onde do outro lado encontrá-se o exército da força policial. É um problema extremamente pessoal e não, exatamente, um problema para o longa. Mas como espectador, as cenas de confronto pacífico me passariam a sensação muito maior de emoção caso fossem tratadas de outra forma. As expressão dos personagens, a caminhada coreografada, e a câmera nas alturas, me passaram a sensação de não verossimilidade, e a vontade óbvia do filme emocionar seu publico simplesmente não acontece.

Depois da sessão, fiquei tentando achar o fator pelo qual o filme não me tocou, apesar de ter tudo inclinado para que isso aconteça: um drama enorme, uma história trágica e absurda (onde negros precisaram lutar, fisicamente e psicologicamente, para conseguiram o direito de votar como qualquer ser humano), e atuações realmente boas. E mesmo assim, não emocionou.
Encontrei a resposta no mesmo fator citado acima. O clima dos confrontos não me parece natural. Parece extremamente ensaiado, cinematográfico e teatral, o que contrasta gritantemente com a proposta do filme de passar ao telespectador a realidade dos acontecimentos trágicos da época.
Não desminto, de forma alguma, as atrocidades que aconteceram. Só tenho medo de não passar a sensação certa para o público. Talvez as sequências tenham ficado parecidas demais com filmes blockbusters, o que realmente não deveria ter sido a intenção (12 Anos de Escravidão passou as sensações corretas com maestria. Desculpem a comparação).

Falando agora das atuações fenomenais do filme, já citadas, David Oyelowo arrepia em cada um dos muitos discursos como Dr. Martin Luther King Jr. O ator encarnou tão bem o papel do ativista: grita, chora e usa tão bem cada movimento do seu corpo, que a tão famosa vontade de mudança e sede de justiça do pastor ativista é quase palpável. As dificuldades e obstáculos que ele teve que enfrentar para simplesmente conseguir o direito de ser chamado e tratado como qualquer cidadão americano, é perceptível e revoltante.

Por fim, uma última nota, que pra mim não suportável ignorar, já que estamos em época de Oscar: A academia ter ignorado altíssimos pontos em Selma - Uma Luta Pela Igualdade, filme corajoso que mostra a quantidade de podridão contida na história dos Estados Unidos, mostrando somente a ponta do iceberg que é a farsa da "Beleza Americana" (inexistente), enquanto abraça um filme pretensioso, ostentador e patriota como American Sniper, foi somente um dos vários motivos aos quais contribuíram para a polêmica envolvendo racismo por parte da academia esse ano, opinião da qual, particularmente, faço parte. É uma vergonha inaceitável para uma Academia de arte, tão influente para o mundo do entretenimento. Não tirando a qualidade de American Sniper como filme, mas citando apenas algumas das inúmeras injustiças: Oyelowo é melhor que todos os atores indicados.

Yuri Hollanda

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