Crítica | House Of Cards - 3ª Temporada


O Xeque-mate dos Underwood



Cuidado: O texto a seguir contém spoilers.

No mundo das séries, é quase uma regra que se a produção tiver uma temporada de estreia excelente, ela não conseguirá manter o ritmo pelas próximas. Dentre as que quebraram a regra e se agruparam entre as exceções, está House of Cards.
House of Cards, desde sua estreia, provou que pode ser considerada uma das séries mais fascinantes dos últimos anos. A qualidade da série exala, desde sua produção, fotografia, e todos os termos técnicos, até a atuação de todos (sem exceção) do elenco. O carro chefe, Kevin Spacey, dá um show que deixa um texto como esse sem adjetivos a sua altura, na pele de Frank Underwood (sem dúvida um dos personagens mais instigantes da história dos Tv Shows).

A relação entre o casal Underwood, que já vinha sendo explorada no final da segunda temporada, e em alguns feixes da primeira, é colocada em primeiro plano, fazendo com que nós, telespectadores, junto a Frank, percebamos que Claire Underwood é a Rainha desse tabuleiro de xadrez político construído pelo governo de seu marido. Como presidente, as falcatruas e trapaças de Frank estão mais absurdas que nunca, o que aumenta ainda mais a probabilidade de uma crise no casamento acontecer. E é o que acontece, porém não estamos vendo uma crise conjugal de um casal comum. Estamos presenciando os bastidores de um casamento político. Mais especificamente, o casamento do Presidente e da Primeira Dama dos Estados Unidos da America.
E o presidente está mais dependente que nunca da sua Primeira e fascinante Dama, queira ele admitir o fato ou não.

Um dos itens mais interessantes em House of Cards é a forma como o Underwood ultrapassa as paredes da cinematografia e interage com o telespectador. Uma pessoa tão respeitada como Frank, que passa tanto medo e segurança, ali, falando com você, um mero mortal. Esse é um dos itens-chaves da série, o quanto ela te coloca na presença da situação, o quanto você sente o cerco se fechando, e o nível da verossimilidade da política que nos é apresentada. Você é o confessionário de Frank Underwood, e só você conhece cada milímetro do cérebro desgraçado dele, embora ele adore nos passar a perna as vezes. É como fazer parte da casa de cartas dos Estados Unidos da América, a qual mesmo você não querendo sujar as mãos, vendo políticos literalmente se matarem, não resiste e não só suja, mas lambuza as mãos com o sangue da política. A carne é fraca demais diante dos prazeres disponibilizados por House of Cards. E é impossível resistir ao fato de poder ver os bastidores desse congresso de fascistas. E o responsável por isso, por essa sua culpa em amar assistir a House of Cards, é o próprio protagonista, Frank Underwood.

Underwood pode ser definido como o personagem que você detesta admitir que admira. Eu admiro Frank Underwood e tenho medo da reputação que posso passar aos leitores desse texto, mas é a mais pura verdade. Embora sem escrúpulos nenhum, Frank fucking Underwood é um dos maiores gênios que a teledramaturgia americana já criou. Não dá nem para chamá-lo de anti-herói, por que o que ele verdadeiramente é, é um vilão. É um vilão corrupto, assassino, mal caráter, infiel, ardiloso e entupido de maldade até os poros. Mas é um vilão inteligente, e você amaria ter metade da inteligência de Underwood. Você admira Underwood assim como eu, é só uma questão de tempo até você se acostumar com essa ideia (se não consegue aceitá-la).

Mas esse ano, nem mesmo a inteligencia de Underwood pode assegurá-lhe a tão sonhada presidência (conquistada na marra). Há uma frase na temporada, no, talvez, melhor episódio dela toda, que define Underwood muito bem (apesar de ser o próprio a citá-la, alimentando o próprio ego exorbitante):
"Você sabe o que necessita coragem? Segurar tudo isso quando o nível de tudo está lá em cima".
Os níveis de tudo estão lá em cima nesse novo ano de House of Cards, e o que torna tudo ainda melhor, além de Frank Underwood ser o comandante de uma das maiores potências mundiais, é a sua fraqueza no relacionamento com Claire. O casamento dos dois nunca foi a prova de balas, e isso é perceptível desde a primeira temporada. Mas aqui, nós temos o retrato íntimo da situação toda. Uma panorama do caos conjugal. E nesse caos, Claire é quase nivelada ao nível de importância de Frank, deixada atrás apenas pelo fato dele já ter conquistado o público quase que totalmente, deixando ela como uma coadjuvante, mesmo não sendo.

Claire nunca esteve tão presente nunca temporada de House of Cards até hoje, e não desagradou nenhum pouco. Desde sua entrada como embaixadora da ONU, até pegar para si as rédeas e tentar conduzir o casamento da melhor forma possível, a personagem mostrou para o que veio e que tem a inteligência e malícia do mesmo nível de seu marido. É incrível como Claire Underwood é tão igual a Frank Underwood, e tão diferente ao mesmo tempo. A relação dos dois é, acima de tudo, de parceria, de negócio. É diplomática.
É claro que há amor, e se não é amor é algum sentimento não definido. Aliás, não dá para definir nenhum dos dois. Frank é uma incógnita em todos os sentidos, desde sua sexualidade, até sua incrível capacidade de mudar de opinião enxergando os passos e os movimentos que a sua peça adversária fará no tabuleiro de Xadrez.
Claire é a Rainha, a que não pode ser descarda do jogo, muito menos cair. Mas cai. Xeque-mate.
A decisão tomada pela Primeira Dama na última e arrebatadora cena da temporada foi uma das coisas, se não a mais importante coisa que aconteceu em toda House of Cards. Nada de Frank sendo presidente! Claire tomando a decisão tomada foi o ápice que essa série chegou, e é realmente uma pena termos que esperar a próxima temporada.
Sem Claire Underwood, Frank é só Frank. E Frank sabe disso. Ele mesmo disse.

Com sua melhor season finale, e melhor temporada, House of Cards nos deixa órfãos novamente, mas com a recompensa pela espera dada. Restá-nos a certeza de um Frank desesperado no próximo ano, ansiando para saber se é reeleito como presidente, para assim, ao menos, ter ganho a batalha de forma justa (na medida do possível estipulada por ele mesmo).
E se Frank Underwood está desesperado, você também está. Por que você sabe que quando está com os olhos House of Cards, você é a pessoa em quem Frank Underwood revela seus segredos mais íntimos. E você sabe, confesse: a melhor coisa de ser um telespectador de House of Cards é, por 50 minutos, se sentir como Frank Underwood.


Yuri Hollanda

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