Review | Doctor Who - The Witch's Familiar (S09E02)

Sinopse: Preso e sozinho em uma aterrorizante cidade do império Dalek, o Doctor precisa escapar; sem screwdriver, sem TARDIS e sem ninguém para ajudá-lo. Mas com sua maior tentação diante dele, ele irá resistir? E o mais importante, haverá misericórdia? 
"...Sometimes, on a good day, if I try very hard, I'm not some old Time Lord who ran away. 
I'm the Doctor."

Uma das coisas que torna o Doctor um Ser tão fascinante e complexo de se acompanhar, é o fato do personagem ser construído por meio de dilemas, e como cada escolha - seja pelo "bem maior", pela satisfação pessoal, por questões morais, ou por compaixão -, contribui para a evolução do personagem, além de determinar o próximo passo da jornada do Time Lord.

Dito isso, The Witch's Familiar não só acresenta uma nova camada ao 12º, e continua a explorar o desenvolvimento do personagem que desde sempre vem crescendo; como também consegue cumprir as promessas de The Magician's Apprentice, e superar sua primeira metade com nada mais que diálogos e um foco maior nos personagens. O que nos leva aos dois pontos principais do episódio: A relação de Clara e Missy, e Doctor e Davros.

The Witch and the Familiar

Missy e Clara foram vistas pela ultima vez sendo mortas pelos Daleks, mas como já era de se esperar, isso não durou muito tempo, e logo nos primeiros minutos do episódio já nos é dada a resposta de como elas sobreviveram ao "exterminío" - E melhor que a resposta, só mesmo a forma de como ela é dada. Sim, não era surpresa pra ninguém que as duas escaparam através de teletransporte, mas a sequência ainda é um presente, e além de ser mais criativa do que parece, também traz uma certa dose de nostalgia com ela.

A interação da dupla não mudou muita coisa também, mas continua tão divertida quanto antes (senão mais), e o fato delas terem mais tempo juntas aqui, só proporciona a Moffat a chance de "brincar" melhor com essa estranha relação. O ódio de Clara, a insanidade de Missy, e a necessidade de trabalharem juntas acabam tornando a dinâmica ainda mais imprevisível, e com tanta coisa rolando entre elas, você não deixa de se perguntar o que uma reserva pra outra a seguir. Ou seja: Ameaças de morte são o que não faltam, principalmente por parte da Clara, e é ótimo ver que isso não mudou desde Death in Heaven.

Enquanto elas procuram um meio de entrar na cidade, Moffat continua a aprimorar os Daleks, apresentando assim, os esgotos de Skaro. A ideia talvez tenha parecida um pouco conveniente demais, servindo exclusivamente para ao desfecho do episódio, mas o conceito dos Daleks decompostos ainda foi uma sacada inteligente, mostrando mais da natureza bizarra dessas criaturas e estendendo a ameaça e a complexidade deles para fora da armadura. Sem falar que isso ainda nos forneceu um dos melhores momentos de Missy, que com um broche (um broche!!) conseguiu derrotar uma das criaturas mais poderosas do universo. E palmas pra Michelle Gomez e seu sotaque caipira.

Ainda brincando com o conceito dos Daleks, Moffat decide colocar Clara dentro de um e nos mostrar melhor como a essas criatura funcionam. E o que temos consegue ir além de "Subtraia amor, adicione raiva".  Na verdade, chega a ser agonizante ver como eles reprimem sua habilidade de expressar qualquer outra coisa que não seja ódio. A cena também vale pelos paralelos a Oswin, e pelo prenúncio do plano de Missy no final do episódio.

The Magician and the Apprentice*

Já do outro lado de Skaro temos o inevitavél confronto entre Doctor e Davros. É aqui que alma do episódio se encontra dessa vez, e os diálogos, que pra mim sempre foram o ponto forte de Moffat, voltam a ter todo o seu peso, e é quase poético o que o showrunner faz com os personagens. Sem mencionar a atuação que os atores entregam - Se alguém ainda duvida da capacidade do Capaldi depois do seu discurso sobre ser o "Doctor", eu realmente não sei o que mais esperam dele.

O roteiro ainda se aproveita das incapacidades de Davros pra fazer o público se importar com o personagem, e devo dizer que pela primeira vez em muito tempo, eu consegui sentir pena de vilão que é escrito exclusivamente para ser odiável (ao contrário de Missy). O que também não dura muito tempo.

"Tell me Doctor... Am I  a good man?"
Enquanto questiona o Doctor, Davros mostra como os inimigos de longa data são nada menos que reflexos um dos outro:
Homens que são capazes de fazer atos impensáveis pela sobrevivência do próprio povo e que no fim acabam questionando a própria moralidade. 
Mesmo com todo o lado emotivo, não podemos esquecer que é com Davros que estamos lidando, e sendo ele o um mestre da manipulação, é claro que ele engana o Time Lord e o leva até uma armadilha, provando aquilo que ele vem dizendo a tempos: Compaixão é errado. 
Ou pelo menos assim ele acredita.

Somos então levados a acreditar que, de bom grado, o Doctor cede parte de sua energia de regeneração para proporcionar a Davros um ultimo pôr do sol. E essa é uma atitude tão natural do Time Lord, que a gente realmente acredita na ingenuidade dele, mas o sentimento que vem seguido disso é de desgraça iminente - e a reação de Missy ao notar o que está acontecendo só contribui pra isso. Só que ao contrário do que parece, o Doctor não é nenhuma vítima aqui, e no fim das contas os únicos manipulados somos nós.

"Same old, Same old. Just The Doctor and Clara Oswald in the TARDIS"

De fato, uma das coisas que o Doctor mostra bastante aqui, é que você não querer irritar ele. No começo do episódio, por exemplo, já o vemos desesperado pela "morte" da Clara, ou como Missy diz: Um Doctor sem esperança, sem nada a perder e disposto a destruir tudo por isso. O que só ajuda a resaltar a importância que a amizade de Clara tem pra ele, além de fazer a gente se questionar do que ele será capaz de fazer uma vez que perder a companion pra sempre.

Aliás, Missy também percebe isso, e não demora muito pra mostrar o quão fria e sádica ela pode ser. Ainda tentando provar pro Doctor que os dois não são diferentes, ela o convence que Clara está morta e quase o induz a matar a companion que na verdade ainda está presa dentro de um Dalek. E o pior é ver a companion lutando pra se expressar, enquanto a armadura filtra e distorce cada palavra sua, o que gera a cena mais tensa de todo o episódio. É claro que as coisas não saem como o esperado pra Missy, e quando o Doctor descobre a verdade, a raiva no rosto dele é visível. "Fuja" é tudo que ele tem a dizer para ela. 

Porém, antes, ela faz um comentário um tanto sútil, e que remete ao possível arco e tema da temporada.

Ao aprisionar o Doctor e roubar parte de sua energia de regeneração, Davros menciona uma antiga profecia que se refere a uma criatura híbrida, "duas das grandes raças guerreiras juntas" ele diz. Coincidentemente, Missy usa o mesmo termo pra se referir a Clara, o que não deixa de ser curioso, uma vez que ela não estava presente quando Davros mencionou isso. Enfim... apenas suposições aqui, mas não seria surpresa se o tal híbrido viesse a ser a Clara, e o próprio episódio fornece algumas dicas para sustentar isso.

De qualquer forma, a escolha do arco foi um tanto surpreendente, e é aquele tipo de coisa que faz a gente se perguntar "por que isso não foi feito antes?". E eu só espero que a série não tente aplicar o plano de Cartmel. Mas de um jeito ou de outro, esse plot ainda vai ser contraditório, então...

Compassion is wrong!
So long there's Mercy...

O cliffhanger mais discutido do ultimo episódio, certamente foi o do Doctor apontando a arma para o pequeno Davros. Ali o publico se perguntava: Seria o Time Lord capaz de matar o criador dos Daleks, apenas pra salvar a vida de uma amiga? Bem, a resposta já era o que se esperava, e uma vez com o contexto, ela ainda fecha um ciclo, e encerra a discussão entre Davros e Doctor que já dura 40 anos. 
Discussão essa onde Davros apontava compaixão como um erro, algo que o Doctor sabia que nunca seria o suficiente pro criador dos daleks, e ao voltar no campo de batalha ele ensina ao garoto misericórdia, um sentimento que não seria suprido com ódio e que ficaria impresso no DNA dos Daleks, salvando assim a vida de Clara. 

É claro que tudo ainda remete a promessa que o Time Lord fez ao adotar o nome "The Doctor", e se havia alguém que realmente achava que o final deveria ser diferente, eu digo aqui que a pessoa não entende a série ou o personagem. 

Ah, também é legal notar que na primeira aparição de Davros em Genesis of the Daleks, a última coisa que ele pede a suas criações é misericórdia. Outro caso, é como River foi capaz de fazer um Dalek implorar pela vida em The Big Bang. Na época o Doctor não estava por perto quando isso ocorreu, e muita gente não entendeu de onde aquilo saiu, sendo assim Moffat aproveita pra explicar aquele pequeno acontecimento aqui, mostrando como o tal sentimento surgiu na criatura e como ele pode vir do medo. 

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The Witch's Familiar encerra então a melhor e mais arriscada abertura da série até aqui, atingindo um nível tão alto que vai ser dificil outro episódio da temporada superar. Mais sério que sua primeira parte, o episódio também conseguiu nos dar as respostas de formas mais que satisfatórias, e mesmo que seja em The Magician's Apprentice que se encontra toda escala e reviravoltas, é a conclusão que fica com toda a grandeza - provando assim que se pode fazer mais com menos.
Sua maior virtude, no entanto, é a forma como a história trata o conceito de "bem vs. mal", e como Moffat descontrói completamente a nossa definição de certo e errado, e  amigo e inimigo. Dando assim uma maior complexidade a história.

"The friend inside the enemy. The enemy inside the friend"


Obs:
1 - A próxima review vai ser dupla, mas como os episódios também serão duplos, isso nem deve fazer muita diferença.
2 - A fotografia dessa temporada ta incrível!
3 - Muito tem se reclamado dos óculos sônicos, mas Capaldi já disse que eles são apenas um acompanhamento para a chave. Mas sinceramente, pra mim se livrava dos dois de uma vez. Esse objetos facilitam demais as coisas pro roteiristas.
4 - Missy tem uma filha... Ok, que comecem as teorias! (Não é a Maisie!)
5 - "Tell him the Bitch is back" wooooah

*Uma das coisas interessantes dessa temporada é que os títulos dos episódio se completam. No caso da premiere, no entanto, não só os títulos se refletem, como seus significados também. Enquanto TMA se refere a Davros, TWF se refere a Clara. É um paralelo curioso ter, respectivamente, um vilão e um mocinho na mesma posição ao lado de um Time Lord. Sem falar que os títulos se referem aos dois relacionamentos que guiam a história. Detalhe bobo, mas incrível e bem pensado pra mim.









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