Resenha | Cicatrizes

Título: Cicatrizes
Título Original:  Stitches
Autor(a): David Small  
Editora: Leya Cult
Ano: 2010
Páginas: 5336
Sinopse:  Em 'Cicatrizes', o autor e ilustrador David Small expõe momentos dolorosos de sua infância e juventude. Como um drama kafkiano, as imagens desta graphic novel trazem, uma a uma, o retrato da vida difícil que David - uma criança extremamente criativa e talentosa - suportou por ter sido vítima da frustração e da raiva dos seus próprios pais.

Cicatrizes é uma das obras mais corajosas que já tive o prazer de ler. Não adepto a Histórias em Quadrinhos, eu, na minha ingenuidade, não esperava que um livro tivesse um poder tão alto de me tocar sendo uma HQ.  Como eu estava enganado...
A autobiografia de David Small não poderia ter tido um título mais sugestivo. A bravura de Small em cutucar suas cicatrizes, reabrir essas feridas e estampá-las em suas trágicas, dramáticas mas belíssimas ilustrações, é admirável. Small teve experiências de vida delicadíssimas, e o livro é tão sincero, tão imersivo, que chegamos ao ponto de nos sentirmos desconfortáveis lendo sobre a vida de um garoto tão oprimido. Parece uma coisa que não deveríamos estar vendo.

A razão disso é por ser um livro visceralmente pessoal. Small domina tudo: as palavras usadas em seus balões, o roteiro, as maravilhosas ilustrações e os diálogos realistas de uma vida cruel. As ilustrações são um dos pontos mais altos (se não o mais alto) nos motivos com que fazem "Cicatrizes" ser uma graphic novel tão boa.

Os traços de Small trazem a melancolia intrínseca em sua vida, as cores e a iluminação dos ambientes retratados trazem implicitamente a tona todas as tragédias vividas por um menino que enfrenta muitos traumas, duelando com monstros que vivem dentro de casa quando sua arma é apenas sua inocência, sua infância, que pouco a pouco vai sendo destruída.

David foi um garoto oprimido pela sociedade, oprimido dentro de casa, oprimido pelo sexismo imposto em crianças que teoricamente não tem sexualidade/sexo/libido. Oprimido por ser criança, por ter uma visão genuinamente infantil e inocente em um meio social tão perverso e vulgar. Quando lemos sobre David, e sabemos que aquele menino tão injustiçado é o mesmo ilustrador e escritor bem sucedido de hoje, vemos que a esperança humana é uma das coisas que nos fazem ser um dos seres mais complexos que existem. E David Small é com certeza um dos seres mais fortes que existem. Ao término, me perguntei como ele conseguiu afastar os demônios de sua infância com o passar do tempo. Me pergunto se ele sequer conseguiu isso.

No fim, eu só espero de coração que sim, que ele tenha conseguido. Cicatrizes é com certeza um dos livros mais melancolicamente bonitos que existem. Ele marcará todos os seus leitores. Ele formará uma cicatriz na mente de cada um que o ler, que não vai se esvair tão cedo.


Yuri Hollanda

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