Review: Doctor Who - The Girl Who Died (S09E05)

Sinopse: Capturados por Vikings, Doctor e Clara precisam proteger uma vila de uma raça Guerreira: os Mire. Em menor número e desarmados, o seu destino parece inevitável. Então por que o Doctor está preocupado com uma única garota da vila?

"Cada vida que eu salvo é uma vitória, Clara" disse o Time Lord ainda em Trenzalore após anos lutando uma guerra sem fim. E é trabalhando em cima desse sentimento, que The Girl who Died nos traz uma das histórias mais bonitas desde que Capaldi entrou na série, explicando o atual rosto do Doctor de forma mais significativa possível, e continuando a longa evolução do personagem.

Graças ao trabalho em conjunto de Moffat e Jamie Mathieson (Flatline), o roteiro ainda consegue disfarçar seu verdadeiro propósito, e nos pega de surpresa ao usar um plot totalmente despretensioso e carregado de humor, como desculpa para chegar ao foco real da história, que se mostra muito mais profundo do que inicialmente parecia. Então, apesar de termos uma batalha iminente entre Vikings e Aliens no centro de tudo, o que realmente guia o episódio são os personagens e suas motivações.

"Oh Clara Oswald... What have I made of you?"

Por ter um ritmo mais lento, The Girl who Died também oferece um espaço maior para longos dialógos, e com Clara e Doctor tendo mais tempo juntos aqui do que nos últimos 4 episódios, isso dá a chance de explorar o relacionamento da dupla mais a fundo, além de tocar em assuntos que já são recorrentes nessa temporada. A começar pelo desenvolvimento de Clara.

Desde de Flatline a companion vem se tornando cada vez mais parecida com o Doctor, e se em Under the Lake/Before the Flood nós tivemos um vestígio disso no seu lado imprudente e até mesmo frio, aqui nós vemos isso na forma em ela lida com o falso Odin, já que, ao confrontar o "vilão", Clara usa toda a confiança que o Doctor geralmente demonstra, e por pouco impede uma guerra com nada mais que algumas palavras e o medo do inimigo (ao melhor estilo Pandorica Opens).

Como se não bastasse, mais tarde no episódio ela ainda se mostra totalmente empenhada em salvar a vila, se recusando a dar as costas pra briga, e notando isso, o Doctor volta a expressar sua preocupação as atitudes da companion. Aliás, a cena em que ele discutem isso, só reforça a transformação que ambos personagens sofreram durante o tempo juntos, pois se antes era o papel de Clara se preocupar, agora vemos que a tarefa foi transferida para o Doctor.

Isso, nos traz outro tema que vem sendo tratado com frequência na nona temporada: A mortalidade de Clara.

Sendo esse o último ano de Jenna Coleman, o fim da companion é inevitável, e pensando nisso, Moffat continua a focar no impacto que a perda dela terá no Doctor, e principalmente no que ele fará pra impedir que isso aconteça, afinal, ele já deixou bem claro em episódios anteriores que não vai aceitar isso fácil. No entanto, ao se encontrar em uma situação em que ele perde Ashildr, outra pessoa com quem se importava, o Time Lord é obrigado a encarar a realidade que um dia, nem mesmo Clara estará mais ao seu lado, e a cena que ele admite a dor que isso vai lhe causar, é uma das mais bonitas e sinceras do episódio e da dupla - e se já dói vê-lo assim, nem dá pra imaginar como vai ser quando o que ele teme se concretizar.

"I'm so sick of losing"
A atuação de Capaldi nessa cena só ajuda a aumentar o peso emocional que ela carrega, e o lamento do Doctor só acrescenta ao fardo da imortalidade que ele leva consigo e a dor que ele já sentiu e ainda vai sentir. 

The Girl who Died 

Falando em Ashildr, a personagem, interpretada por ninguém menos que Maisie Williams de Game of Thrones, rouba a cena em alguns momentos aqui, e mesmo não tendo muito a fazer, ela ainda é construída de forma bem cuidadosa e no pouco que vemos, já dá pra notar as semelhanças que ela compartilha com o Doctor e principalmente as diferenças - mais precisamente na forma deles verem o mundo. 

A cena que ela explica porque não quer ir embora, é bastante profunda mesmo sendo simples, mostrando mais uma vez a força dos diálogos. E quando ela diz para o Doctor a importância de ter um lar, ainda notamos o quanto sua sabedoria vem da limitação do seu mundo, e como é aquilo que define quem ela é. O que, de certa forma, só torna o final da personagem trágico, uma vez que tudo isso vai ser tirado dela em algum momento. 

Na sequencia final, inclusive, já temos um vislumbre disso, e mesmo The Girl who Died sendo uma história que se sustenta sozinha, esses últimos segundos do episódio nos deixam com aquela sensação de assuntos inacabados. E de fato, toda essa construção da personagem de Maisie não foi atoa, e logo vemos os efeitos das atitudes do Doctor.
A tal cena é bem simplista, curta e sem falas, mas que ainda assim diz muito, pois em menos de 1 minuto vemos o olhos da "contadora de histórias" ganharem o peso da vida eterna. Nos deixando com apenas uma certeza: a Ashildr do próximo episódio não será a mesma garota ingênua daqui.

Ah, e só pra ressaltar, a trilha sonora combinada com as expressões da atriz fazem toda a diferença, e só tornam esse momento mais poderoso. 

Obs: Ao refletir ao final do episódio sobre o que fez com Ashildr, o Doctor menciona que ele pode ter criado o híbrido da tal profecia. Mas o que acontece com a menina aqui, é o mesmo que acontece com Clara em The Witch's Familiar. E mais vez eu acredito que a profecia se refere a companion.

"I am The Doctor, and I save people"

Tornar a garota imortal pode não ter sido totalmente uma vitória, mas vê-la morrer também não era uma opção para o Doctor, não naquele momento. E como sabemos, o Doctor não toma decisões sensatas quando fica emotivo (pelo menos ele se certificou que Ashildr não passe sofra com sua maldição). Então, ao se deparar com outro de seus dilemas, o Time Lord se lembra de algo que finalmente o motiva a quebrar suas próprias regras. E tudo remete a Pompeia...

Desde que Capaldi foi anunciado, ficamos nos perguntando se a sua participação na quarta temporada teria alguma relevância na série, até que, em Deep Breath, o assunto foi trazido a tona e aprendemos que isso realmente não seria algo esquecido, e mais; ainda foi deixado implícito que o 11º estava tentando dizer algo a sua futura encarnação com aquele rosto. Agora, depois de um ano, enfim entendemos a mensagem.

Em seus 900 anos de guerra em Trenzalore, o Doctor aprendeu que se apegar a vida era um luxo que ele não podia ter, ver gerações morrendo não era saudável para ele, e se lamentar por aquelas mortes não resolveria o problema maior. E daí veio o jeito indiferente do 12º que vimos na temporada passada; Um homem que não se permitia chorar pelas vidas que ele sabia que não podia salvar. 
Mas Trenzalore também o ensinou a contar as pequenas conquistas, algo que mesmo Donna tentava fazê-lo enxergar, e pensando que um dia ele precisaria se lembrar disso, o 11º escolheu o rosto de um homem que sua antiga companion o inspirou a salvar. Deixando para trás o último recado: Se estiver ao seu alcance, salve quantas vidas puder. Cada uma delas vale. 

A revelação, embora não tenha sido surpresa pra alguns, não pareceu clichê nem forçada, e se encaixou perfeitamente no arco do 12º. Afinal, essa é a mesma pessoa que passou o último ano questionando a própria natureza, e prometendo compensar pelos erros do passado. De certa forma, isso é um complemento a resposta "Am I a Good man?", e o fato de Moffat ter segurado isso tanto tempo também fez sentido, visto que, no contexto do episódio e do estágio que o personagem se encontra, a revelação fluiu naturalmente. 

"You just decided to stay"
Mais cedo no episódio, o Doctor também mostra que ele ainda é o homem que não foge enquanto há crianças chorando, mostrando o como ele valoriza a inocência acima de tudo. Pra mim, esse foi momento que o episódio revelou sua verdadeira natureza, e atuação de Capaldi foi tão tocante quanto a cena. 


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Apesar de toda a carga emocional, The Girl who Died ainda conseguiu equilibrar o roteiro com um humor que impediu que o episódio ficasse maçante ou arrastado (cenas como a do treinamento merecem ser mencionadas). Derrotar o vilão que vive apenas da reputação, ao contar uma história melhor que ele, também foi uma sacada inteligente e ao reconhecer que a ameaça é fraca, os roteiristas mostram que aquele realmente não é o foco da história.

Priorizando a simplicidade das coisas ao invés de plots complexos, nos é deixado então um episódio que vai além da "aventura da semana", que toca levemente nas consequências da imortalidade, introduz uma nova personagem ao universo da série com um potencial incrível, e mais uma vez se concentra nas atitudes e motivações do Doctor. Além de dar um senso de direção maior para o que vem a seguir. 

Obs: A review dos dois últimos episódio se perdeu nos meus rascunhos, mas pra temporada não ficar incompleta, eu ainda devo postar em algum momento. Só me resta achar. 

Obs1: "I'm not a hugger" Hahaha Tão bom ver momentos como esse. 




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