Crítica | Beira-Mar


Ao assistir Beira-Mar percebe-se que o filme só pôde ser feito porque o cinema contemporâneo brasileiro está numa fase onde o foco das obras está em retratar a sociedade como ela é, sem enfeites. O cinema está, felizmente, virando o retrato cru de sua sociedade. A arte imitando a vida. Beira-Mar faz isso tão bem, com tantos detalhes da vida de adolescentes dessa geração, que acaba se prejudicando por isso. Uma famosa frase diz que “A maioria dos dias do ano são dias comuns, sem nada de interessante ou relevante”. Podemos também dizer isso sobre Beira-Mar, trocando algumas palavras da frase descrita. A maior parte do tempo de Beira-Mar retrata dias comuns, sem nada de relevante para o roteiro em si. E isso não chega a ser um problema, quando é, na verdade, a intenção do filme: retratar a vida cotidiana da geração Y, dominados pela tecnologia e por relações introspectivas, silenciosas e monótonas.

O filme narra a viagem de dois amigos, Martin e Tomaz, ao litoral, onde Martin vai em busca de parentes distantes. Essa subtrama familiar se desenvolve de forma peculiar durante o longa-metragem e lentamente é esquecida diante do enfoque direcionado a principal trama do filme: a relação entre Martin e Tomaz, amigos de muitos anos, mas que foram se distanciando devido ao tempo, tendo Martin encontrado a viagem ao litoral como solução para se reaproximar de Tomaz.
Os diálogos dos amigos podem parecer artificiais, já que os diretores do filme optaram por conversas reais de adolescentes, sem a gramática correta, geralmente inserida em obras cinematográficas, indo de encontro ao que realmente acontece na vida real. Há gírias, palavrões, assuntos “banais” como relacionamentos, amigos, bebidas e festas, tornando o filme bastante imaturo. Mas não poderia deixar de ser, visto que seus personagens, todos eles, estão em busca da maturidade que tanto lhes é cobrada.

Esse tema carrega todo o filme: os amigos tem praticamente a mesma idade, não tem a personalidade completamente formada, não sabem muita coisa sobre o futuro, muito menos o que estão fazendo com suas vidas. Os diretores acertam ao mostrarem que os jovens de hoje em dia estão muito propensos a uma certa depressão, a dias remotos, monótonos. Isso pode, para alguns, se tornar uma característica negativa sobre Beira-Mar: o filme acaba virando uma série de acontecimentos sem ritmo e desinteressantes para o telespectador. Tem um sério problema com ritmo, e chega a ser entediante em alguns minutos sequenciais. Em compensação, o aspecto visual do longa é excepcional. Os movimentos de câmera e seus enquadramentos capturam muito bem a atmosfera de sua obra, dando-lhes as nuances necessárias. A fotografia também é extremamente caprichada, porém não supre a falta de preenchimento no tempo do filme (quase duas horas) com relevância, causando-lhes uma impressão muito comum hoje em dia: a de que a obra funcionaria melhor como um curta-metragem.

Além de seu problema com ritmo, Beira-Mar também peca ao se tornar parasita de outras obras. São óbvias as inúmeras referências a “Azul é a Cor Mais Quente” e expressões artísticas do cinema francês. Não é um problema, até ser. O filme retrata o assunto sexualidade, que precisa ser falado e mais introduzido no cinema, mas não traz originalidade para o assunto. Beira-Mar não é ambicioso. Leva-se duas horas para que os acontecimentos principais entre seus dois protagonistas sejam mostrados na tela, e quando eles finalmente acontecem, não são explorados. A tela se apaga, resumindo o filme a um acontecimento extremamente pequeno diante do vasto leque de opções que poderiam ser exploradas num tema como sexualidade. É uma pena que o cinema brasileiro não tenha dado um passo tão longo num assunto que é necessário, mas não deixemos de vangloriar a atitude. Foi um passo pequeno, mas foi um passo.

Beira-Mar, assim, entra para a leva de filmes “neutros”: não são extremamente bons, mas não chegam a ser ruins. Merecem o reconhecimento pela coragem de retratarem assuntos que não possuem voz no cinema brasileiro, que ainda são tabus. A representatividade e peso da obra, porém, não é muito alta.

Yuri Hollanda

Redes Sociais

SNAPCHAT

SNAPCHAT

ANÚNCIO