Crítica | A Bruxa


Recuperando o tema bruxaria e paganismo, há muito tempo esquecido no gênero de terror, “A Bruxa” vem com uma proposta de história nada nova: uma família é amedrontada por acontecimentos estranhos enquanto sua filha é vista como a responsável por esses incidentes, acusada de bruxaria.
Mas o filme de estreia do diretor Robert Eggers vai muito além do óbvio e clichê terror comercial e explora áreas como religião (de forma bem pesada), discutindo a qual nível o fanatismo religioso pode chegar, questionando e expondo a ignorância medieval que, infelizmente, pode facilmente ser comparada aos dias contemporâneos, onde a religião ainda comanda a mente de boa parte da população, definindo suas ações, seus conceitos do que é certo e o que é errado e doutrinando virtudes.

Essa discussão ganha forma numa família extremamente conservadora, expulsa de um condado por levar suas crenças a sério demais. Quando eventos sobrenaturais similares a bruxaria começam a ocorrer na floresta ao lado de sua nova casa, no campo, para onde eles foram obrigados a fugir, cria-se uma espécie de guerra santa e religiosa entre os membros da família. Os segredos são expostos, as feridas são cutucadas, e o conservadorismo se volta contra eles mesmos. A mais afetada é a filha mais velha da família, a bela Thomasin, maravilhosamente interpretada pela atriz Anya Taylor. Thomasin é a mais atingida pelo fanatismo da família por estar numa fase importantíssima da vida. Ela está com os hormônios à flor da pele, sente desejos carnais, seu corpo está se desenvolvendo, e ela se vê presa, obrigada a se auto reprimir por ordens implícitas de sua família e sociedade.
É exatamente nesse ponto que A Bruxa acerta em cheio (não que ele deixe de acertar em algo). Expondo a hipocrisia da família e da política religiosa a qual eles seguem, o diretor conduz o filme com inúmeros artifícios assombrosos (o filme pode ser terrivelmente assustador algumas partes) mas sem deixar seu roteiro cair em pobreza, sem desenvolvimento de sustos somente por assustar. Todos os momentos de medo, tensão e apreensão, característicos do gênero de terror, em “A Bruxa” aparecem com uma justificativa, uma razão para tal.

Partindo do simples terror comercial, Eggers transforma o seu “A Bruxa” em uma obra sobre a busca pela libertação de pessoas que são presas pelo medo opressor. As situações a qual seus personagens estão presentes podem facilmente serem reproduzidas nos dias de hoje como a forma fascista de aprisionar pessoas: a menina que é obrigada a se oprimir para não ser desejada, que não pode atender a seus desejos naturais carnais, pois esses sentimentos são obras do diabo, são coisas ruins. A mãe que, sem perceber, faz mal a seus filhos tentando encaixar valores que resultam em algo totalmente diferente do que eles propõem. O pai que aplica seu regime totalitário em busca da educação de seus filhos.

Ligeiramente aberto para interpretação, “A Bruxa” deixa um aspecto inegável em seu conteúdo: o filme escancara o quanto o bem, às vezes, pode-se tornar um mau disfarçado. Como o fanatismo, disfarçado de amor pela religião, pode destruir qualquer coisa, permitindo-se colocar sobre outros paralelos, encaixando-se em qualquer situação onde o que é demais venha a ser destrutivo. Sendo sua primeira obra, mas quase uma obra-prima, Egger consegue, então, fazer de “A Bruxa” o melhor filme do gênero desse ano, que está quase no fim, e talvez um dos mais influentes dessa década. Não é todo dia que vemos um gênero tomar um frescor tão revigorante, ainda mais o terror, gênero que, hoje em dia, é quase sinônimo de má qualidade no cinema, infelizmente.
O diretor consegue introduzir um assunto muito maior que seu gênero poderia suportar, de forma magistral, com uma mensagem incrível: a de que, embora não podemos provar que fenômenos sobrenaturais existem ou não, o mal, a bruxaria, o paganismo e os demônios são reais, eles existem, e somos nós. A única diferença é: quais dos maus estão disfarçados de bondade? E até que ponto iremos deixar que eles nos destruam?


Yuri Hollanda

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