Crítica | Lion - Uma Jornada Para Casa


O drama baseado em uma história real narra a trajetória do jovem Saroo Brierly (Sunny Pawar quando criança/Dev Patel na fase adulta) que, aos 5 anos de idade, perdeu-se do irmão em uma estação de trem em Calcutá, tendo que sobreviver sozinho nas ruas da Índia, sendo eventualmente colocado em um orfanato e adotado por uma família de australianos. Porém, o tempo não apaga as memórias do passado e, aos 25 anos, Saroo resolve ir atrás de sua família biológica. 

Apesar de não possuir grandes reviravoltas ou inovações narrativas, o longa se destaca por ser uma história extremamente humana, visceral e emotiva. É impossível não se comover ao assistir uma criança tão pequena e indefesa se perder em um país gigante e tão empobrecido, ao mesmo tempo que sua força impressiona o espectador, fazendo com que passemos a admirá-la por ter mais bravura que muitos adultos. 

Um dos trunfos do filme é, sem dúvida, a presença de espírito do ator mirim Sunny Pawar (fofura!), quando o garoto está na tela não existe mais nada além dele, é um tesouro achado que foi muito bem explorado pelo diretor estreante Garth Davis, envolvendo a audiência, de maneira que todos torcem por ele, um pequeno extremamente cativante. Novamente, a presença de um ator criança rouba a cena, tal como ocorreu ano passado com Jacob Tremblay em “O Quarto de Jack”. Parece que o futuro de Hollywood está em boas mãos. Agradecemos! 

A segunda fase do filme mostra Saroo com 25 anos, muito bem representado por Dev Patel, já adaptado ao estilo de vida ocidental depois de tantos anos na Austrália. Ao iniciar sua educação acadêmica, acaba por ter um reencontro com sua antiga cultura através de alguns amigos conterrâneos, e um momento de catarse termina por despertar nele o desejo de reencontrar sua família indiana, imaginando o quanto esta sofreu com seu desaparecimento por mais de duas décadas. A partir de então, Saroo inicia uma busca frenética através do Google Earth para identificar qual fora a estação em que se separou de seu irmão e, assim, reencontrar sua velha casa. 

Nesse contexto, Patel carrega nas costas cenas de extremo desespero e tensão com enorme carga emocional, onde não há outros personagens para contracenar, apenas ele atuando sozinho e conseguindo passar com maestria o quão perturbado pela culpa seu personagem se encontra, como os demônios do passado não permitem que ele prossiga com sua "vida privilegiada" enquanto seus parentes amarguram sua ausência, sem fazer ideia de qual foi seu destino. Uma cena digna de nota é quando a câmera foca apenas em seus olhos, enquanto ele pesquisa no Google Earth, e a medida que ele vai avançando em seu objetivo, seus olhos vão enchendo de lágrimas até transbordar. Brilhante.
  
Além dos dois atores que interpretaram maravilhosamente as duas fases do protagonista, faz-se necessário ressaltar a atuação brilhante de Nicole Kidman como Sue Brierly, a mãe adotiva, simplesmente de partir o coração, uma mulher que carrega a bondade nos olhos, que consegue transbordar sua ternura e maternidade com o olhar. Rooney Mara também aparece no filme, porém, infelizmente, sua personagem não faz jus a grande atriz que ela é, não havendo espaço para brilhar. 

O longa é simples, sem muitas pretensões, possui grande carga dramática devido ao enredo que realmente exige isso, porém não implora pelo choro do público, ele simplesmente vem naturalmente, como costumam ser os filmes genuinamente emocionantes. 

“Lion – Uma Jornada Para Casa” é um filme que enternece, enriquece e faz bem, você sai do cinema com os olhos inchados e o coração leve com a certeza de que acabou de assistir um daqueles filmes que, apesar de retratar muito da miséria humana, também retrata o amor, a superação e a possibilidade de sempre termos uma segunda chance, nada que já não tenha sido batido e rebatido em diversas produções de Hollywood, mas se a fórmula se repete é porque ainda funciona, então que continue sendo usada, para que em meio a diversos filmes mais do mesmo surjam alguns absolutamente espetaculares como esse. 

A belíssima obra foi agraciada com 6 indicações ao Oscar, incluindo Melhor Filme, Melhor Ator Coadjuvante (Dev Patel), Melhor Atriz Coadjuvante (Nicole Kidman) e Melhor Roteiro Adaptado.

Lara Gutierrez

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